Cochichando para a Capital
*Mácleim Damasceno
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Os fatos demonstram, sem qualquer sofisma, que aqui se confunde a expressão ‘política pública’ no lugar de ‘política governamental’, ou ainda ‘política de governo’
“A verdadeira constituição das coisas gosta de ocultar-se.” A essa conclusão chegou Heráclito de Éfeso e, agora, cai como uma luva para ilustrar o que vem a seguir. Pois bem, recentemente, recebi uma ligação, em meu celular, de alguém que não conheço e que sequer se identificou. O tal senhor estava bastante aborrecido. Perguntou se eu era eu mesmo e se trabalhava na Rádio Educativa FM. Respondi que sim para ambas as perguntas. Ele, num tom de cobrança, de pronto, mandou um solo mais ou menos assim: “Porra! O que está acontecendo? Estou aqui no centro e não consigo mais sintonizar a rádio, não pega mais...”
Respirei fundo, me imaginei na Educativa (por coincidência estava de férias), no meu horário de trabalho, na condição de servidor público consciente de que a minha obrigação primeira é prestar um bom serviço e satisfação ao contribuinte que paga o meu salário. Esperei o ouvinte terminar seu solo e dei a mesma resposta que tenho repetido – há pelo menos quatro anos – para ouvintes que não são do meu círculo de amizade e fazem o mesmo tipo de reclamação. Portanto, não fui além de uma justificativa técnica. Ou seja, o transmissor da Rádio Educativa tem mais de 20 anos, já deu o que tinha que dar e não presta mais para nada, além de causar problemas reincidentes. Aliás, se o saudoso Sandoval Caju fosse vivo, e trabalhasse na Educativa, ele faria a mesma locução que fez ao se despedir de uma rádio local. Ele diria: “ZYC 107,7. Rádio Educativa FM, falando para a capital e cochichando para o interior”. E olhe lá, no caso da Educativa, poderia ser: falando para o CEPA e cochichando para o resto da capital.
Quero deixar bem claro que, a partir deste parágrafo, não escrevo apenas como servidor do Instituto Zumbi dos Palmares, IZP. Escrevo, sobretudo, como cidadão ciente do que a Constituição do nosso país nos faculta em direitos e deveres, que preserva sua consciência crítica e jamais se furtará ao exercício da liberdade de expressão. Principalmente, ao perceber claramente a pertinência da máxima determinada por Heráclito de Éfeso, no que se refere ao tema abordado aqui. Faço essa ressalva, pois, por mais de uma vez, fui vítima de censura dentro e fora do IZP.
Mas o que de fato se oculta por trás da precariedade técnica nos veículos de comunicação do IZP? Sobretudo, a rádio e a TV Educativa? Ora, seria ingenuidade ao extremo, ou então subserviência extremada ao establishment, responsabilizar os servidores desta autarquia que, a despeito das condições adversas - os que resistem e permanecem lá -, cumprem suas funções com profissionalismo, abnegação e brilhantismo. Portanto, o xis da questão chafurda no viés da gestão de um governo neoliberal que, a exemplo do que também tem acontecido no Estado de São Paulo, com a TV Cultura e Fundação Padre Anchieta, silenciosamente promove o desmonte, subjuga e fragiliza o IZP como um todo. É como se dissessem: tudo bem, já que é complicado politicamente acabar com o IZP, deixemos que continuem produzindo conteúdo de qualidade, porém, não necessariamente precisa chegar à população. Transformemos, pois, em Tântalos.
Sabemos que o conceito de política pública, pelo menos nos países avançados, implica em tudo aquilo que está protegido dos governos e é considerado uma conquista da sociedade. É evidente, e os fatos demonstram, sem qualquer sofisma, que aqui se confunde a expressão ‘política pública’ no lugar de ‘política governamental’, ou ainda ‘política de governo’. É por isso que o estado utilitarista volta seus olhos de harpia para a Rádio Educativa, por exemplo, quando é para impor um programa chapa-branca, em ano eleitoral, estabelecendo assim um ridículo paradoxo, pois esquece que o feitiço também vira contra o feiticeiro.
Ao ouvinte, ao telespectador, evidentemente, não lhe cabe a noção de como a precariedade na sintonia e alcance da Educativa FM e da TV Educativa, não passam da ponta do iceberg. É um dos efeitos de uma política de governo cujo interesse parece estar voltado para o privilegio econômico - com o dinheiro dos contribuintes - de alguns veículos de comunicação comercial (talvez até por afinidades familiares), em detrimento do fortalecimento da rede pública de comunicação.
Seria bom que aquele pertinente e revoltado fosse um dos leitores aqui do O Tagarela, pois, provavelmente, não será através das ondas raquíticas da Educativa FM que ele terá a possibilidade de ver socializada a informação e promovido o debate – não enquanto as coisas permanecerem como estão.
* é programador musical, estudante de jornalismo e músico.
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Lembrete à memória
* João Marcos Carvalho
Domingo, três de outubro, o Brasil vai às urnas. Com um simples voto, arma eficaz da democracia, você pode mudar o destino do seu estado e do País. Mas bancar o agente transformador da história não é tarefa fácil nos dias que correm. Em uma terra onde a luta ideológica se esfarelou e os ideais políticos se confundem com negociatas de cabaré, o caos se apresenta nu e teso.
A solução? Recorrer à memória. Isso mesmo, caro leitor... à memória! No caso específico de Alagoas, se não há quase ninguém confiável em quem votar, vamos lembrar em quem não votar.
Nos últimos cinco anos, a Polícia Federal, por meio de operações bem-sucedidas, meteu na cadeia uma vintena de políticos acusados de roubar dinheiro da merenda escolar e de desviar 302 milhões dos cofres da Assembléia Legislativa.
Valendo-se dos atalhos generosos da Justiça, gabirus e taturanas estão em liberdade e caçam seu voto com apetite famélico. Entre eles, assassinos psicopatas, chefes de quadrilha, assaltantes de banco, salteadores de estrada e exploradores da prostituição infantil.
Esses marginais de luxo, que garantem a impunidade bancando caros advogados pagos com o dinheiro roubado do povo miserável deste estado falido, contam com a amnésia do eleitor para continuar enriquecendo e delinqüindo.
Devastado pela violência, Alagoas é, dos estados nordestinos, aquele onde a vontade dos “coronéis” ainda é muito visível. Sua Casa Legislativa não passa de um desmoralizado balcão de negócios. Ressalvadas as raríssimas exceções, se tornou abrigo seguro para bandidos e pistoleiros, um covil do crime organizado cujos chefes, pasmem, estão blindados contra os incômodos da Justiça, através de lei especialmente criada para atender a esse fim.
E é dessa forma, na bala e na tabica, que muitos parlamentares pretendem se reeleger. Não vão medir esforços para continuar no poder. Ética, civilidade e democracia são verbetes que não figuram em seus dicionários, se é que, algum dia (apesar de conterrâneos de Aurélio), eles folhearam um.
Pois é, leitor, três de outubro se aproxima veloz. Não perca a chance de dar um freio de arrumação na política de sua terra. Você tem dois dias para pensar. Enxotar os vermes da Assembléia alagoana, demitir a medíocre bancada federal e afastar senadores inoperantes é dever do cidadão consciente. É a oportunidade única que o regime democrático lhe oferece para interferir diretamente nos destinos regionais e nacionais. Lembre-se: o trem da história custa a passar e, às vezes, quebra pelo caminho. Portanto, saltar para dentro dele é uma questão de honra.
* é jornalista e historiador


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