Centro de confusões
Ruth Cardoso
* Mácleim Damasceno
Em meio ao maniqueísmo estabelecido entre prós e contras, apareceu até a sugestão de um modelo de gestão compartilhada para o complexo.
Apesar
de sua linha arquitetônica de gosto duvidoso, o Centro de Convenções de Maceió
– atualmente administrado pela Secretaria Estadual de Turismo (Setur) – é um
dos mais importantes legados deixados pelo governo de Ronaldo
Lessa. Inaugurado em 2005, o Centro de Convenções de Maceió
foi construído com R$ 34 milhões de verba pública e, entre seus
equipamentos, abriga uma jóia preciosa e de altíssima relevância para a
produção cultural caeté, o Teatro Gustavo Leite. Alegando prejuízo na manutenção
do local, o Governo quer agora terceirizar o espaço.
Para
desgosto de uns e alvíssaras de outros, uma licitação deve ser publicada para a
escolha da empresa que vai administrar o complexo. Fala-se, a boca-miúda, que
um grupo estrangeiro já seria o favorito na disputa da galinha dos ovos de ouro
– pelo menos na visão daqueles que não fazem parte do governo neoliberal,
sempre sequioso por privatizações e terceirização. Sendo assim, criado o
impasse, O Tagarela foi ouvir
opiniões diversas e, na maioria das vezes, contraditórias sobre a pendenga.
Alguns produtores culturais, e empresários da cadeia produtiva de eventos em
Maceió, reagiram com indignação e tentam se articular para junto ao Ministério
Público Estadual brecar o intento governamental.
Licitação
direcionada
Se, de fato,
houver a terceirização da administra-ção do Centro de Conven-ções de Maceió, já
se sabe que será pelo período de 25 a 30 anos. Acredita-se que tudo está sendo direcionado para uma empresa de fora do
País que já coordena em torno de 70 Centros de Convenções no mundo inteiro.
Sabe-se que esta empresa tem toda a infraestrutura de que precisa. O que
significa desde montadora, passando pela parte técnica, até o bufê. De acordo
com alguns produtores que atuam no mercado local, caso venha a ser feita a
terceirização para tal empresa, possivelmente, a consequência imediata será a
quebra de cerca de 300 empresas que empregam até 3 mil pessoas que trabalham
para os eventos do único equipamento deste tipo no Estado. “Só há prejuízo no
Centro de Convenções quando o Estado promove seus eventos lá. Porque o Estado
não paga nada. Só fazem coisas para acabar com o Estado. Vão é vender o Centro
de Convenções! Por que não deixa na mão do Maceió Convention & Visitors
Bureau? A gente acredita que tem alguém ganhando dinheiro com isso”, disse
Armando Garcia, da ProStand, produtor de eventos desde1995.
Na
outra ponta desse novelo a secretária-adjunta do Turismo, Raquel Tenório,
afirma que as críticas à terceirização da administração do Centro de
Convenções viriam de pessoas que "pensam no próprio umbigo" e
receberiam benefícios irregulares por conta do atual modelo de gestão das
chamadas pautas, que são os valores pagos para o uso do local para eventos.
Apesar de não dar nome aos bois, pelo histórico, provavelmente, ela se
referia à produtora Sue Chamusca, que sempre realiza eventos no local e foi a
primeira que chiou e divulgou uma nota alegando que a medida iria afetar negativamente
vários segmentos da economia do Estado que lidam com a realização de eventos e
produção cultural.
Outro lado da moeda
Diametralmente
contra aos que criticam a terceirização do Centro de Convenções de Maceió, o
produtor cultural e presidente da Associação dos Folguedos Populares de Alagoas
(Asfopal), Keyler Simões, quando perguntado sobre o assunto pelo O Tagarela,
disse: “Sou favorável a essa terceirização diante das práticas imorais e
desprezíveis de certos produtores que se valem de amizades no governo para
sugar do Centro de Convenções, tanto que conseguem para si pautas gratuitas e a
regalia de bloquear outras pautas antes e depois de seus eventos, para que
ninguém mais alugue, por exemplo, o Teatro Gustavo Leite. O que impede que o
Centro de Convenções arrecade por dias, só para benefício de poucos. Com a
terceirização isso acaba, e não é uma invenção alagoana. Pelo país afora os
Centros de Convenções só conseguem funcionar bem desta forma. De que forma
poderíamos ter o de Maceió totalmente climatizado? Só assim. Até hoje, o Centro
de Convenções de Maceió não possui uma equipe própria de trabalho, ou seja, na
mão do estado ele não vingará.”
Ainda de
acordo com Keyler Simões, no processo de licitação a empresa tem
que comprovar experiência neste tipo de gestão, daí muita gente
"acusar" o Governo de dirigismo. Ele diz não acreditar, “pois em
Alagoas não temos ninguém com essa experiência. Realmente, acredito, só é
contra esse processo quem pretende ou está acostumado a utilizar os aparelhos
públicos com grandes descontos de pautas ou até mesmo de graça, pois para quem
trabalha corretamente e paga pelo que contrata não deve fazer diferença ser
estatal ou privado.”
Pautas inviáveis
O fato é que
o altíssimo valor da pauta cobrada atualmente, pelo Teatro Gustavo Leite,
inviabiliza 99% das produções locais a se utilizarem daquele equipamento
cultural. Além disso, apesar do teatro ser excelente, falta estrutura
de som, por exemplo. A pauta é muito cara, o aluguel por um dia custa R$ 5 mil.
Será que sob nova administração, terceirizada, esse valor da pauta será
reduzido? Será que as produções locais poderão ter acesso a um equipamento
público, construído com dinheiro público, que a priori deveria ser
democraticamente utilizado? Será que a situação atual não se trata apenas de
mais um caso da péssima administração e incompetência do governo Téo Vilela?
Essas questões são pertinentes e deveriam ser esclarecidas pelos gestores do
complexo, em resposta aos verdadeiros donos do Centro de Convenções de Maceió:
a população alagoana.
Gestão
compartilhada
Como tudo
tem uma terceira via, em meio ao mani-queísmo estabelecido entre prós e contras,
o produtor cultural Gustavo Alcântara sugere o modelo de gestão compartilhada e
até mesmo a mudança da natureza jurídica do local, para facilitar seu uso
sustentável e democrático. “O governo poderia nomear um conselho gestor,
formado por entidades que trabalham com a produção de eventos, para administrar
o Centro de Convenções. O equipamento deveria ter um CNPJ, ser transformado em
pessoa jurídica, para ter maior autonomia. Tudo hoje é muito burocrático. Para
realizar melhorias, a depender do custo do serviço, é necessário fazer licitação.
E isso demora muito”, afirma o produtor cultural, que cita a experiência do
Riocentro, no Rio de Janeiro, para dimensionar os riscos que a cadeia produtiva
de eventos em Maceió corre com a idéia de terceirizar o Centro de Convenções.
“Vi numa matéria que a quantidade de eventos do Riocentro caiu. A empresa que
comprou o local prioriza espetáculos mais lucrativos. A informação é
extra-oficial, mas importante”.
* é jornalista e músico

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